Clube

06 janeiro 2021, 18h30

Carlos Nicolía, António Diniz, Rui Domingos, Rui Lança, Filipa Jones e Sara Ferreira

RESUMO

O impacto da COVID-19 no desporto foi tema em debate na edição desta semana do programa da BTV "Sport Lisboa e Modalidades", merecendo o assunto uma reflexão pelos ângulos da experiência e da ciência. 

No dia 5 de janeiro, com presenças nos estúdios e por vídeochamada, a forma como a pandemia que atravessa o mundo interfere, direta e indiretamente, no desempenho dos atletas foi analisada por um pneumologista e membro do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos, António Diniz, pelo médico da equipa de basquetebol do Benfica (em representação de todo o corpo clínico do Clube), Rui Domingos, pela psicóloga da Formação do Benfica, Filipa Jones, pelo diretor das modalidades coletivas de pavilhão, Rui Lança, e ainda pelos atletas Carlos Nicolía (hóquei em patins) e Sara Ferreira (futsal feminino).

Impacto da COVID-19 no desporto

António Diniz: "É natural que os atletas, quando voltam aos treinos, possam ter dificuldades em termos de resistência"

"Os atletas são pessoas e estão sujeitos aos mesmos riscos e aos mesmos critérios para as gravidades das doenças", lembrou o pneumologista António Diniz, na exposição sobre as consequências da pandemia no desporto.

"É natural que os atletas, que têm um esforço complementar, no início do regresso aos treinos, depois de terem sido infetados, possam ter dificuldades em termos de resistência. Mas o que vale é que eles são bem acompanhados pelos respetivos departamentos médicos dos Clubes", destacou.

"Apesar de tudo, ainda há um conjunto de atletas que tem os sintomas típicos da COVID-19. Houve três casos que me surpreenderam e vieram confirmar isso, um deles foi quando o treinador do Shakhtar, Luís Castro, disse que dez jogadores da sua equipa tinham sido infetados e que três deles apresentaram complicações pulmonares e um deles uma complicação cardíaca; outro foi o relato de um nadador pré-olímpico do Sporting, que disse que o recomeço dos treinos para ele foi uma coisa insuportável, que se cansava imenso após ter tido Covid; e o terceiro foi o caso de Lewis Hamilton, que não fez a última prova do Campeonato de Fórmula 1 porque tinha estado infetado e não estava em condições, disse que perdeu peso e massa muscular… Isto quer dizer que mesmo nas pessoas que são atletas estas situações podem ocorrer, embora sejam muito mais raras", pormenorizou o pneumologista.

Com a chegada da vacina contra a COVID-19, "entrámos numa fase nova em que todas as pessoas ficaram com um nível de esperança muito elevado", argumentou António Diniz.

"Essa esperança é compreensível. Devo dizer que o efeito da vacina poderá ser mais precoce individualmente, mas ao nível da comunidade o efeito vai ser muito para lá do primeiro semestre deste ano. Portanto, os tempos que se afiguram continuam a ser tempos que têm de ser muito rigorosos na gestão da pandemia. Isso quer dizer que nós vamos ter de continuar a manter todas as precauções que temos tido até aqui", alertou o pneumologista.

Rui Domingos

Rui Domingos: "Tivemos casos de gravidades completamente diferentes"

Rui Domingos, médico da equipa de basquetebol, que esteve neste painel em representação de todo o corpo clínico do Clube, explicou a diversidade de casos positivos de COVID-19 que já existiram entre as equipas do Benfica. "Tivemos casos de gravidades completamente diferentes. Na sua grande maioria os atletas são assintomáticos, outros têm sintomas ligeiros, mas temos tido também alguns atletas com síndrome de fadiga pós-viral e outros com algumas complicações", explicitou.

"Nenhum atleta do Benfica, seja ele do futebol profissional ou das escolinhas da formação, tem tido um tratamento diferente em relação ao acompanhamento sobre a COVID-19. Todos os atletas são acompanhados rigorosamente. Neste momento aumentámos o esquema de testagem e já testamos cada equipa a cada quinze dias. Exceto se uma equipa tiver um compromisso externo e tiver de fazer um teste, aí sobrepõe-se aos testes normais. Temos uma reunião todas as semanas, que envolve psicólogos, nutricionistas, fisiologistas, fisioterapeutas e médicos e todos os casos são discutidos com grande rigor", vincou Rui Domingos.

"O corpo clínico do Benfica desde o início garantiu todas as condições de um fenómeno ímpar a nível clubístico nacional, no sentido de dotar todos os atletas de um esquema de testagem único a nível de clubes com uma periodicidade bastante regular e que tem garantido também a esses atletas um processo de recuperação bastante rigoroso e acompanhado", pormenorizou.

Rui Domingos falou ainda sobre as "expectativas" dos atletas, tão "naturais" como as da população geral, em relação à chegada da vacina: "Todos eles acham que a vacina é uma garantia da normalidade a partir de um determinado ponto. Eles estão bem sensibilizados, porque o corpo clínico tem feito reuniões muito periódicas com todas as equipas no sentido de explicar, como explicávamos no início, como é que o vírus se transmite e tudo o que é necessário fazermos para que esta propagação abrande na nossa comunidade desportiva. Mas naturalmente eles têm reais expectativas, e eu espero que a vacina seja aquilo que permita um 2021 o mais normal possível."

Nicolía: "Foi um impacto muito forte na equipa, muito duro, mas estamos num clube que sempre nos protegeu"

Carlos Nicolía, atleta da equipa de hóquei em patins do Benfica, esteve infetado com a COVID-19 e viu-se impedido de competir durante quase 15 dias. Na primeira pessoa, testemunhou a experiência vivida por ele e pelos companheiros de plantel.

"Soubemos que tínhamos estado com um colega com o vírus e, sinceramente, foi um impacto muito forte na equipa, porque tínhamos de parar e ficar em isolamento num momento em que estávamos em pleno Campeonato Nacional e a poucos dias de disputarmos a Taça 1947… Foi muito duro, mas estamos num clube que sempre nos protegeu. Ficámos descansados porque o Benfica fez sempre as coisas da melhor maneira para que nós, atletas, não nos preocupássemos", lembrou, agradecido.

"Tive a sorte de ser assintomático, só perdi o olfato ao fim do quinto dia de ter o vírus, mas houve colegas que não estiveram muito bem, os sintomas foram muito mais fortes. Quando voltei aos treinos senti diferenças, claro, mas não sei se foi devido à COVID-19 ou ao facto de ter estado parado algum tempo, porque também não tive sintomas graves", revelou Nicolía.

"A nível físico, só o facto de não podermos treinar já altera a condição física de um atleta, mas sobretudo é um vírus desconhecido, não sabemos o que pode acontecer e isso causa medo. Mas o Benfica, desde o primeiro momento, tranquilizou-nos, a nós e à nossa família", complementou o internacional argentino.

Rui Lança

Rui Lança: "Todo o staff teve de aprender que o que é hoje pode não o ser amanhã"

O diretor das modalidades coletivas de pavilhão do Benfica, Rui Lança, referiu que pandemia introduziu "duas novas variáveis" na gestão quotidiana das equipas e dos atletas, que são "o ambiente altamente complexo" e "um ambiente que está em constante alteração".

"No caso da nossa equipa de basquetebol, quando começou a competir, no início da época, após casos de COVID-19, vinha de uma completa paragem de quinze dias. Como foi o primeiro surto, fomos gerindo dia a dia conforme as novidades da própria gestão", recordou.

"Aprendemos a deixar de dar grande importância ao facto de estarmos constantemente a alterar coisas. Ao início chateava-nos um pouco, porque temos planos de treino e as coisas organizadas, mas agora começámos a relativizar. Os atletas e os treinadores preparam-se para um determinado jogo, que muitas vezes na véspera ou no próprio dia é cancelado e mete em causa a preparação física e o lado emocional dos atletas. Todo o staff teve de aprender que o que é hoje pode não o ser amanhã", detalhou Rui Lança.

"Nós temos tido a sorte de contar com uma equipa de HPD [Human Performance Department]... Várias pessoas têm estado sempre ao dispor, quer numa fase inicial para explicar a todos nós o que era este acontecimento, quer depois para nos ensinarem como é que se aprende a conviver com o vírus", lembrou o diretor.

Filipa Jones

Filipa Jones: "A primeira fase é sempre mais complicada, porque não há muitas respostas"

Psicóloga da Formação do Sport Lisboa e Benfica, Filipa Jones relatou as dificuldades de gerir as dinâmicas a que cada atleta está habituado. "A maior parte dos nossos atletas, quando sabe que está infetado, sabe porque testou positivo ou porque teve algum caso na família… Não estamos a ter muito a experiência de um atleta saber que está infetado por ter sintomas. Quando volta a competir, a maior parte dos atletas tem tido um retorno muito adaptativo e a partir daí já não há muito receio. A primeira fase é sempre mais complicada, porque não há muitas respostas", enquadrou Filipa Jones.

"Vamos sempre acompanhando os atletas, tentamos perceber como é que eles vão reagindo ao longo dos dias, gerimos o facto de estarem parados e isolados em casa e percebemos se podem estar em contacto com a família ou não. Ainda temos atletas que não conseguem treinar de uma forma integrada, ainda não têm competição e isso causa um impacto muito grande em termos das dinâmicas normais, individuais e de equipa", observou.

Sara Ferreira

Sara Ferreira: "Tive medo... mas o Benfica e as minhas colegas ajudaram-me a ultrapassar"

"Ainda não fui infetada, mas tenho relatos de colegas a quem o vírus afetou ao nível da respiração e os primeiros treinos foram muito difíceis", revelou Sara Ferreira, ala da equipa feminina de futsal do Benfica.

"Ao início não foi fácil… De todo o nosso plantel, se calhar fui a pessoa que mais medo teve, mas o Benfica e as minhas colegas deram-me todo o suporte e toda a ajuda para ultrapassar isso e agora já encaro de uma maneira normal, porque a vida tem de continuar e temos de continuar a praticar desporto", confessou.

"A vacina é um sinal de esperança e espero que daqui para a frente as coisas melhorem", desejou a futsalista.

Texto: Márcia Dores
Fotos: SL Benfica
Última atualização: 6 de janeiro de 2021

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