12 de março de 2018, 12h15

José Henrique: "Deixar a vida em campo em cada jogo"

Futebol

Em entrevista exclusiva ao jornal O Benfica, o antigo guarda-redes, que há pouco tempo recebeu o emblema de 50 anos de sócio, falou do seu amor ao Clube e, no que ao futebol diz respeito, assinalou que "cada partida é uma batalha", tendo no horizonte o Pentacampeonato.

É uma das maiores lendas da baliza encarnada. Aos 74 anos, José Henrique recebeu recentemente o emblema de 50 anos de sócio.

Em entrevista exclusiva ao jornal O Benfica, Zé Gato falou da sua vida e amor ao Clube.

São 50 anos de sócio… meio século de ligação ao Clube. O que sentiu ao receber o emblema de ouro?

Estes 50 anos foram passando sem que eu fosse dando por isso. As alegrias foram muitas, não há descrição possível, assim como as tristezas, embora essas sejam em menor número. Este emblema de ouro foi o coroar destes anos de sócio e vai andar comigo todos os dias da minha vida.

Consegue escolher os melhores momentos como atleta do Benfica?

Naturalmente que tenho alguns. O primeiro jogo pelo Benfica fica sempre na memória, depois ser Campeão Nacional pela primeira vez, a final da Taça dos Campeões Europeus e representar a Seleção Nacional. Um dos meus melhores jogos foi frente ao Saint-Étienne, onde me chamaram de gigante. São estes alguns dos momentos que marcaram a minha carreira.

Tem alguma história curiosa para contar que se tenha passado nos 13 anos a jogar de águia ao peito?

Uma vez num estágio estávamos a brincar ao 31 e convencemos o Mário Coluna, o nosso capitão, a brincar connosco na estalagem de Carcavelos. Eram estas algumas das nossas brincadeiras para passar o tempo.

Jogou em grandes equipas do Benfica. Qual aquela que sentiu ser a melhor em que estava inserido?

Para mim são todas desde 1966 até 1979. Mas há duas que são especiais. A primeira foi aquela em que fomos à final da Taça dos Campeões Europeus, que é memorável, e depois a que ganhou um Campeonato sem derrotas (1972/73). Sem querer tirar o prestígio às outras todas, estas são as duas formações em que joguei que penso que estão mais vincadas na história do Clube.

Dessas equipas há alguma que lhe faça lembrar a atual? 

É difícil. Os tempos são completamente diferentes. Hoje há mais qualidade, mais trabalho de campo do que existia antigamente. Portanto, é complicado dizer se havia jogadores no meu tempo que jogavam hoje no Benfica, ou se algum destes jogadores do plantel atual jogava na minha altura. O mais importante é o Clube, e todos os jogadores merecem que tenhamos carinho por eles.   

Que memória lhe traz o dia 29 de maio de 1968, dia da final da Taça dos Campeões Europeus (Manchester United)?

Estive a dois minutos de ser Campeão Europeu. Não fui “porque” o Eusébio falhou um golo que nunca falhava e naquele dia o destino quis que falhasse. Estar num estádio mítico como era Wembley, a defrontar uma grande equipa como era o Manchester United, e depois estar a representar o Benfica numa final da Taça dos Campeões Europeus é um momento histórico na minha carreira.

Escusado será dizer que é um sonho seu ver o Benfica numa final da Liga dos Campeões. No panorama atual do futebol europeu, acha que é algo possível?

Acho que sim. Para começar, em todos os jogos em que o Benfica participa quer ganhar, e na Champions isso não é diferente. Tal como o nosso presidente disse que espera ver o Clube Campeão Europeu, também eu espero ainda cá andar para o festejar.

José Henrique

Eusébio é sempre um nome incontornável, como o recorda?

Eusébio foi o melhor jogador que vi jogar futebol e já não vou ver algum igual. Não há dúvida de que o Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo, mas não podemos comparar os tempos atuais com os que nós passámos. Nada era igual, nem mesmo os jogadores eram iguais. Hoje há muito mais condições. Eu lembro-me de que um dos nossos treinos era ir para o Estádio Nacional e fazer exercícios de força com troncos de madeira a fazer de obstáculos, o que era muito difícil.

Lembra-se de alguma história curiosa sobre ele?

Houve um dia em que fomos fazer uma digressão à Ásia e íamos estar oito horas no Cairo. O presidente Borges Coutinho entrou em contacto connosco para fazermos um jogo no espaço de tempo que íamos ficar no Egipto. A verdade é que o Eusébio tinha sido operado recentemente e não estava em grandes condições. Então a organização do jogo fez a imposição que se o Eusébio jogasse o prémio de jogo era de 40 mil dólares, se não jogasse era de 10 mil. Equipámo-nos no autocarro e no estádio estavam 100 mil pessoas a assistir. Aos 10 minutos do desafio, houve um livre um pouco depois do meio-campo, e o Eusébio disse que ia marcar o livre, fazer golo e que de seguida se ia embora, e assim foi. Marcou um grande tento, foi por trás da baliza fez uma vénia com todo o público a gritar por ele.  

E em termos de treinadores? Qual o que mais o marcou?

O treinador que mais me marcou foi o Fernando Cabrita. Foi a pessoa que me foi buscar ao Atlético e que me ensinou o que era ser guarda-redes. E depois, claro, todos os grandes nomes por quem fui treinado. O Fernando Riera foi quem apostou em mim. Com Jimmy Hagan passei três anos maravilhosos e com quem fazia exatamente o mesmo treino que os meus companheiros. Depois o Jonh Mortimore e o “Velho Capitão”, Mário Wilson, que foi um técnico especial para todos nós e que nos ensinou muito. E depois, claro, um dos treinadores mais importantes da história não só do Benfica como do futebol português, Otto Glória. Todos estes senhores tiveram uma quota-parte naquilo que sou hoje no Benfica.

Viu guarda-redes de grande nível no Benfica. Quais os melhores que pela baliza encarnada passaram?

Eu fui substituir um “monstro” como o Costa Pereira. Era um guarda-redes que tinha quase dois metros de altura e que marcou a sua época. Coube-me a mim o prazer de o substituir e, com maior ou menor dificuldade, consegui ultrapassar os obstáculos e muito graças aos ensinamentos do Fernando Cabrita. Depois, tive a grande honra de estar com o Manuel Bento, que me veio substituir e se tornou num dos grandes guarda-redes do Benfica, que marcou muito o seu tempo. Nos anos 90 chegou o Michel Preud’Homme, que na altura o melhor do mundo, e em pouco tempo entrou na história do Clube. Todos os outros que passaram por esta casa tiveram muito mérito.

José Henrique

"Bruno Varela tem o que é preciso para defender a baliza do Benfica"

Acredita que o Penta é possível? O que a equipa terá de fazer para conseguir esse objetivo?

Para já, em cada jogo têm de deixar a vida em campo, pois cada partida é uma batalha. Agora com a união que os jogadores têm, com o companheirismo que há entre eles, com a confiança do treinador nos seus jogadores, acredito que é possível alcançar esse objetivo que é de todos os benfiquistas.

Como vê o atual momento do futebol luso?

Neste momento o futebol português está entre os melhores. Cada vez mais as equipas são muito competitivas e já não há aquele abismo que existia antigamente entre grandes e pequenos. Agora todos trabalham da mesma maneira e há grandes treinadores na primeira divisão. Este campeonato está a ser disputado a três, e isso contribui para a valorização do nosso futebol.

O que pensa a respeito de Rui Vitória?

Já o conheço há muitos anos. Fui seu adjunto na equipa de Juniores do Benfica orientada por ele. O Rui Vitória já naquela altura era um treinador com as ideias superiores, e todos nós acreditávamos que viria a ser falado como um grande técnico, e isso aconteceu. Não só pelas equipas onde passou, em que deixou sempre marca, como no Benfica, onde está a deixar o seu cunho pessoal. É um homem com H grande, um pai e um treinador exemplar. Acredito que chegará até ao fim do seu contrato.

O que sentiu no momento da conquista do Tetra no final da temporada passada?

Foi algo pelo qual eu também andei a lutar. Em 13 anos ganhei oito campeonatos, em que por duas vezes foram três seguidos, mas nunca conseguimos o Tetra. Logo, foi uma alegria enorme ver estes quatro campeonatos seguidos.

José Henrique

Qual a sua opinião sobre o trabalho do presidente Luís Filipe Vieira no Clube?

Para começar quero deixar uma palavra de apreço para o nosso presidente e para toda a sua direção, pelo trabalho desenvolvido ao longo destes anos no Benfica. Estamos perante uma estrutura que tem realizado um grande trabalho e enaltecido o Clube. Esperemos que tanto a equipa principal como a formação continuem a dar muitas alegrias e títulos ao nosso presidente. É esse o meu desejo.

Falando da sua posição em campo. Que opinião tem dos atuais guarda-redes do plantel?

Como disse recentemente, apostava no Bruno Varela para o próximo Mundial. Com isto é natural que considere que o Benfica está bem servido, aliás teve sempre grandes guarda-redes e grandes homens que apostaram neles. Penso que o Varela tem o que é preciso para defender as cores do Clube.

Teve um papel importante nos escalões de formação. Viu sair já muitos bons jogadores do Seixal. O sucesso de muitos dos atletas já era previsível?

A formação do Benfica levou uma grande volta e com o Caixa Futebol Campus, que é uma das melhores academias do mundo, melhorou muito. Todo o trabalho é feito com os pés bem assentes no chão. Tenta-se transmitir aos mais novos os valores do Benfica. Portanto, estão reunidas todas a condições para que todos os anos cheguem um ou dois jogadores à equipa principal. O nosso trabalho é feito para que quando os jovens cheguem à equipa principal saibam o que têm de fazer.

Em termos de guarda-redes estamos bem servidos na nossa formação?

Temos uma grande escola de guarda-redes e na nossa equipa de Juniores temos jovens com muito valor e que estão cientes do que é o Benfica e cheios de vontade de trabalharem cada vez mais.

Texto e entrevista: João André Silva

Fotos: Tânia Paulo / SL Benfica

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