18 de abril de 2018, 19h40

Ricardo Gomes: "É muito mais fácil ter sucesso num clube como o Benfica"

Benfica

Antigo defesa brasileiro jogou quatro épocas de águia ao peito e, em entrevista à BTV, confessa que “gostaria, numa próxima vida, de voltar a ser jogador do Benfica”.

Ricardo Gomes, antigo defesa-central brasileiro, jogou no Benfica durante quatro temporadas (1988-1991 e 1995/96). Alinhou pela equipa 140 vezes, marcou 27 golos e ganhou 2 títulos nacionais, 1 Taça de Portugal e 1 Supertaça. Numa entrevista ao programa Alta Fidelidade, da BTV, recordou os anos de águia ao peito e falou ainda de um dos momentos mais duros da sua vida.

Entrou no Benfica em 1988/89 e foi o primeiro jogador que, não tendo nascido em Portugal ou nas colónias, envergou a braçadeira de capitão. Líder congénito, Ricardo Gomes impunha de forma espontânea a sua autoridade, sem levantar a voz. Foi, até 1995/96 - depois de quatro anos ao serviço do PSG -, um exemplo de um defesa imbatível.

Como foi ser campeão no Benfica?

Foi muito bom. Os títulos foram consequência do trabalho de um grande clube, um dos maiores do mundo.

Qual é a memória mais longínqua da sua ida para Portugal?

O mês de junho de 1998, quando fiz os primeiros exames para assinar contrato.

Como reagiu quando lhe disseram que havia a possibilidade de ingressar no Benfica?

Tinha uma proposta de outro clube, mas acho que fiz a escolha certa. Foram apenas conversas de bastidores… Eu tinha duas propostas e acabei por ir para o Benfica. A "culpa" foi do empresário Manuel Barbosa.

Tinha a ideia de que poderia ir para Portugal e ter todo o sucesso que teve naquela época?

Claro que não, nem acho que tenha tido tanto sucesso assim. Mas é muito mais fácil ter sucesso num grande clube, por todo o acompanhamento diário de todas as pessoas envolvidas.

Ricardo Gomes

"Gostaria, numa próxima vida, de voltar a ser jogador do Benfica"

O que é que já conhecia do Benfica naquela época?

Não tinha assim tanta informação. Quando se falava em Benfica, associava-se sempre ao Eusébio e isso era marcante. Mas sabia pouca coisa mais. Não havia internet, não havia quase nada. Mas foram quatro anos inesquecíveis.

Falou do Eusébio… Era uma motivação para quem chegava ao Clube?

Era uma motivação e um bom conselheiro. Fazia parte da equipa técnica e era muito bom a dar conselhos. Contava a história dele e explicava o quanto era bom jogar no Benfica, falando de um grande ídolo mundial. Ele participava em cada jogo, ajudava o Jesualdo e o Toni, pelo seu carisma e pelo seu conhecimento.

Quando Eusébio morreu lembrou-se dos seus dias com ele?

Claro, surgiram recordações… Vai ser difícil encontrar outro Eusébio. Vão ser precisos mais 100 anos. O que ele representou para o Clube é incomparável.

Sempre quis ser jogador de futebol?

Eu queria, mas não acreditava que conseguiria. É diferente. O sonho estava intacto, mas entre querer e ser havia uma grande diferença. Eu próprio tinha uma certa relutância em relação ao meu futebol. Demorou na minha cabeça, mas aos 18 anos já era profissional.

Os pais apoiavam a ideia de ter um filho jogador?

O meu pai era rígido, mas queria que eu estudasse e jogasse à bola.

Ricardo Gomes

"Hoje sou adepto do Benfica, o clube não foi uma escolha. Benfica sempre!"

De volta ao Benfica… O Estádio da Luz assustava-o?

Eu estreei-me no Maracanã, quem se estreia ali não se vai assustar com muita coisa. Mas eu adorava o Estádio da Luz e talvez alguns jogadores que chegavam pudessem encontrar um certo temor pela grandeza e imponência do Estádio.

Os adeptos do Benfica sempre foram especiais?

Até hoje. Eu agradeço a minha passagem pelo Benfica muito por isso, pelo carinho que tive sempre dos adeptos Benfiquistas.

O facto de terem ido muitos brasileiros para o Benfica nessa altura também ajudou à adaptação?

Ajudou muito. Quando cheguei ao Benfica e vi o Mozer pensei: "É melhor jogar com ele do que contra ele". Antes era contra o Mozer, ali passou a ser com o Mozer.

De regresso aos tempos do Benfica. Era um jogador calmo e tranquilo ou pelo contrário?

Era tranquilo, lembro-me de alguns jogadores mais exaltados. Havia um Mozer e um Álvaro Magalhães, que uma vez me perguntou: "Como é que consegues ficar tão calmo?"

Davam-se bem?

Muito. A adaptação foi fácil pela estrutura do Clube, direção, técnicos, adeptos… tudo isso ajudava muito os estrangeiros. Eu tive a sorte de encontrar um bom clube, onde tudo deu certo. O universo conspirava a favor.

É mais fácil ser jogador ou treinador?

É mais fácil ser jogador… "Gostei bastante de ser jogador, mas tenho muito mais prazer em ser treinador", repetindo a frase de Artur Jorge, que foi meu treinador em Paris. O prazer da vitória é maior como treinador do que como jogador. 

Ricardo Gomes

Em 2011, como técnico do Vasco, conquistou a Copa do Brasil e enfrentou a mais dura fase da sua vida. No dia 28 de agosto, sofreu um AVC durante um clássico contra o Flamengo e passou (e ainda passa) por uma longa recuperação, que o afastou do futebol durante quatro anos.

O AVC tornou-o uma pessoa diferente?

Mudou. Nós achamos que somos capazes de tudo, mas o que não aprendemos no amor aprendemos na dor… Foi o meu caso: aprendi na dor. Só posso agradecer, não posso reclamar de nada. Aprendi e continuo a aprender. Temos de agradecer todos os dias estar aqui.

Devemos pensar que os dias têm de ser vividos como se fossem os últimos?

Acho que não. Quando comecei a recuperar, tinha muitas dificuldades. Hoje ainda as tenho, mas muito menos. Já estou há seis anos em recuperação e estou a tentar chegar ao estado em que estava antes do AVC. Se conseguir "zerar" é como se não se tivesse passado nada. Continuo na luta, é mais uma disputa.

Ricardo Gomes

"O AVC ajudou-me bastante a baixar a bola"

Se tivesse de se apresentar em poucos segundos…

Eu escondo bem os meus defeitos. Tenho muitos defeitos e espero que não os conheçam [risos].

Humildade é o caminho para o sucesso numa carreira no futebol?

Posso garantir que eu não era tão humilde assim. Eu passava essa imagem, trabalhada, mas eu tenho muitos defeitos e a falta de humildade era um deles. O acidente também me ajudou bastante a "baixar a bola" e a perceber que era só mais um. Hoje tenho de me recuperar e agradecer a cada dia.

Gostava de treinar em Portugal?

Acho que não, o meu mercado é entre França e Brasil. Hoje sou adepto do Benfica, o clube não foi uma escolha. Benfica sempre!

Se tivesse de motivar o balneário como é que o faria?

É impossível. Quem motiva é quem vive o dia a dia no Clube. Eu torço, só isso.

Uma mensagem para os adeptos.

Tenho saudades, mas gostaria, numa próxima vida, de voltar a ser jogador do Benfica. Vamos ver se isso acontece…

Texto: Filipa Fernandes Garcia

Fotos: Arquivo / SL Benfica

Utilizamos cookies para enriquecer a sua experiência de navegação.
Ao continuar a navegar no nosso site está a concordar com a nossa política de utilização de cookies.

Aceitar