29 de março de 2020, 08h20

A prenda que eu queria?

Clube

Mensagem de Rui Costa no dia em que completa 48 anos de vida.

Vivemos todos um tempo difícil e, seguramente, um tempo que nenhum de nós imaginara algum dia viver.

Não está a ser fácil para ninguém, mas tenho a certeza que está a ser mais duro para alguns. Refiro-me a todos os que estão na "linha da frente" a combater este inimigo invisível e, como não poderia deixar de ser, aos familiares e amigos dos nossos 100 compatriotas que faleceram nos últimos dias, vítimas desta terrível ameaça global.

É neste contexto de profunda tristeza e, obviamente, de enorme incerteza sobre os dias que se seguem que estou a escrever-vos. Não apenas aos Benfiquistas, mas a todos os que, de alguma forma, sofrem e temem por familiares, amigos, conhecidos e até por desconhecidos. Este é um momento em que, como o nosso Presidente disse há dias, "somos todos do mesmo clube".

É mesmo assim. Agora não interessam as cores, as simpatias ou as amizades. Agora interessa tudo! E interessam-nos todos. Num cenário destes, que só conhecíamos dos filmes, apenas poderemos vencer se estivermos juntos. Mais juntos do que nunca.

O Desporto – de uma forma geral – tem sabido estar à altura dos grandes acontecimentos que abalam o País. Embora nunca tenhamos sentido, até hoje, um choque tão grande quanto este. É hora, pois, de dar mais uma excelente resposta e, pelo que temos visto, o Desporto está a saber acompanhar o problema.

Têm chegado, de todos os lados, exemplos que registo com muito orgulho e que aproveito para dizer que gostava, até, de ver repetidos sempre e em qualquer circunstância. Ajudar quem precisa, cuidar dos que sentem mais dificuldades, preocuparmo-nos com o vizinho da frente ou unirmo-nos em prol das grandes causas são "bandeiras" que nunca devem ser abandonadas.

Rui Costa Benfica

As rivalidades existem – e vão sempre existir –, mas o respeito e os bons exemplos que temos visto nos últimos dias devem ser permanentes. Estas notícias que agora vemos a toda a hora na televisão são a prova de que, afinal, é mesmo verdade aquela velha máxima: é muito mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa.

Não posso deixar de lembrar os muitos amigos que tenho em Itália. Um país maravilhoso que me acolheu – a mim e à minha família – durante 12 anos de uma forma que jamais esquecerei. Itália é hoje o país com mais mortes causadas por esta doença e esse sofrimento magoa-nos a todos, como também nos continua a magoar a velocidade com que este vírus se vai espalhando por todo o mundo.

Passei muitos aniversários longe da família. Porque desde muito novo tive a oportunidade, a alegria e o orgulho imenso de representar Portugal. Foram muitos, mesmo muitos, os 29 de março que passei em estágios ou viagens, a preparar jogos da Seleção Nacional. Fi-lo sempre, nunca o escondi, com uma vontade tremenda. Foram anos consecutivos a apagar as velas junto dos meus colegas, mas com a família distante.

Agora tenho-os ao meu lado. Mas hoje, no dia em que completo 48 anos de idade, não posso desejar outra prenda que não seja esta: vamos TODOS – porque só assim faz sentido – cumprir aquilo que nos é pedido a cada instante. Vamos proteger-nos, vamos proteger quem está ao nosso lado, vamos cuidar uns dos outros.

É tudo o que tenho vontade de pedir, na certeza de que, se assim for, em breve estaremos de volta à normalidade das nossas vidas e também a desfrutar do Futebol que tanto amamos.

Um abraço.

Rui Costa

Utilizamos cookies para enriquecer a sua experiência de navegação.
Ao continuar a navegar no nosso site está a concordar com a nossa política de utilização de cookies.

Aceitar