Futebol

08 setembro 2022, 10h00

Roger Schmidt

ENTREVISTA

Roger Schmidt concedeu uma extensa entrevista à muito prestigiada publicação alemã "Kicker", onde abordou vários temas da atualidade benfiquista e deu-se a conhecer um pouco mais, desenvolvendo algumas das ideias e convicções que lhe moldam o perfil como técnico. "Poder treinar um clube como o Benfica é uma honra", realça, determinando o sentimento que vive no Glorioso.

"Não há hipóteses de deixar isto escapar" – foi este o pensamento imediato de Roger Schmidt perante o convite para ingressar no Clube. À "Kicker", onde contou como estão a correr os seus primeiros tempos em Lisboa, confessou que se sente "honrado" por representar o Benfica e que segue a motivação de trabalhar para que os adeptos se "orgulhem" do que a equipa faz em campo. Numa entrevista reproduzida pelo BPlay, ficamos a conhecer um pouco mais o treinador alemão e o seu percurso, com experiências na Europa e também no continente asiático.

Roger Schmidt

RELAÇÃO COM OS ADEPTOS

"Sinto-me muito bem-vindo, mesmo antes de termos começado a jogar. Reparei que a cultura portuguesa se adapta bem a mim. Percebe-se a importância do futebol e a paixão que sentem por este desporto, especialmente pelo Benfica, nesta cidade. Senti isso logo desde o início, houve uma abordagem positiva a nós [equipa técnica] e a mim. Somos os recém-chegados. Depois, foi concentrarmo-nos no trabalho e convencer. Penso que a equipa está a corresponder. O que se passa no campo é a avaliação do treinador. Tentámos ainda alterar coisas, concentrar-nos em outras coisas em termos de futebol, no que é o Benfica, futebol de ataque, jogar para a frente. É sempre positivo jogar bem, ganhar jogos, marcar golos. Isto vai reforçando a confiança e ajuda-nos porque reconhecem o nosso trabalho, mas, tal como a classificação, isto é uma coisa momentânea. Tem de ser constantemente reiterada e é muitíssimo importante."

Roger Schmidt

"Tens de levar as pessoas a vencer, têm de te seguir, de acreditar em ti, tu tens de ter uma ideia clara do que queres que aconteça na equipa"

Roger Schmidt

PERSONALIDADE

"Continuo na mesma. Por vezes o que passa cá para fora não corresponde à realidade. Quem trabalha comigo de perto, nos clubes, sabe que não mudei, nem na forma como lido com as pessoas, nem enquanto treinador. É claro que me vou desenvolvendo. Sinto que sou hoje um treinador melhor do que no [PSV] Eindhoven, que lá era melhor treinador do que na China, e lá era melhor do que em Leverkusen. Com cada trabalho ganhamos experiência. O trabalho de treinador é tão complexo que acabamos por ter um rol maior de opções no que toca à liderança de pessoas, de equipa, na tomada de decisões, por se ter mais experiência. Isso ajuda todos os dias nas muitas opções que se tem de tomar enquanto treinador, ajuda a tomar as decisões certas. E ajuda a ter uma certa serenidade em alguns temas. Isto foi algo que trouxe comigo dos vários locais onde treinei. Daí achar muito importante ter trabalhado tanto no estrangeiro, porque aí é tudo novo. Liga nova, cultura nova, pessoas novas. Penso que cada um é mais adequado a umas culturas e pessoas do que a outras. O que tenho agora, esta abordagem portuguesa, parece-me que se adequa muito bem a mim e por isso está a correr muito bem."

Roger Schmidt

"Tem de se encontrar uma forma de jogar, em certa medida, económica, onde se consiga jogar de forma fiável de três em três dias, mas que também permita alguma regeneração"

PEQUIM

"Foi um desafio especial, porque é uma cultura completamente diferente. Estamos na Europa, e entre Países Baixos, Portugal, Alemanha e Itália, são culturas e pessoas diferentes, mas da Europa para a Ásia é outra história. O que levei comigo é que, para um treinador, o que conta é sempre o mesmo, independentemente do país. Tens de levar as pessoas a vencer, têm de te seguir, têm de acreditar em ti, tu tens de ter uma ideia clara do que queres que aconteça na equipa, no clube, porque tudo o que se vai passar depende de certa forma das ideias do treinador. Depois é conjugar tudo para criar uma equipa estável, que entre em campo convicta e jogue um determinado tipo de futebol. É assim na China, nos Países Baixos e agora em Portugal é igual. Há muitos caminhos diferentes para lá chegar, é preciso encontrar o nosso caminho. Sempre fui fiel a mim próprio. Sempre vi as pessoas, não só os jogadores, mas as pessoas em si e também tudo o que rodeia uma equipa, o que é bastante. É preciso criar um sentimento de comunidade, em que cada um se sinta valorizado, importante e que cada um tenha no coração o sucesso da equipa. Acho que assim podemos desenvolver uma energia positiva que acarreta sucesso no futebol."

Roger Schmidt

"Gosto de olhar para um campo e ver uma equipa a jogar bom futebol, com um plano claro e a fazer de tudo para vencer. Quando vejo isto, como agora, fico satisfeito"

MODELO DE JOGO

"Claro que quando mudas de clube e de jogadores, o jogo muda. Eu já tive equipas que tinham muita posse. Queremos isso, é o mais importante no futebol, porque te permite marcar golos, mas há tipos diferentes de posse. Há a construção de jogo controlada, mas há a posse depois de fazer pressão e ganhar a bola, há a posse depois de se perder a bola e a recuperar, são todos momentos de posse de bola que se pode utilizar de formas diferentes. No futebol, precisas de todos estes momentos para depois poder ser-se flexível, imprevisível e poder marcar golos de formas diferentes. E manter o jogo longe da nossa baliza. Nos últimos anos tenho dado muito valor ao controlo do jogo, do ritmo do jogo e isso funciona melhor quando temos a bola. Eu sempre treinei equipas com competições internacionais, onde se joga de três em três dias. Tem de se encontrar uma forma de jogar, em certa medida, económica, onde se consiga jogar de forma fiável a cada três dias, mas que também permita alguma regeneração. Isto tem de ser adaptado ao clube, à cultura, aos jogadores."

RB SALZBURGO

"Em Salzburgo desenvolvemos em conjunto um estilo de jogo que era muito extremo. Muita pressão alta e gegenpressing, mas também com muita posse de bola. Era uma posse muito vertical. Desenvolvemos esse estilo durante dois anos, com o Ralf, o Helmut Gross, com todos os que lá estavam no início. Porque quando começámos isso não existia. No Salzburgo havia um tipo de futebol completamente diferente. Praticamente lançámos isto, ao longo de dois anos, funcionou muito bem e teve muito de especial. E depois deste desenvolvimento ficou claro que eu ia tentar aplicar isto em Leverkusen. Resultou bem, penso que jogámos muito bom futebol, mas tal como evoluiu em Salzburgo, em Leverkusen também a minha abordagem evoluiu."

Roger Schmidt

"Quando me ligaram a dizer que me queriam contratar, pensei logo 'não há qualquer hipótese de deixar isto escapar'"

LIDERANÇA

"Acho que com o passar dos anos e com passagens por clubes deve melhorar-se. Eu devo melhorar. Todos devem. Todos os treinadores, não só eu. É difícil falar de mim, não me quero avaliar a mim próprio. Gosto de olhar para um campo e ver uma equipa a jogar bom futebol, com um plano claro e a fazer tudo para vencer o jogo. Quando vejo isso fico satisfeito. É o que acontece neste momento. Vejo-o de três em três dias. Isso deixa-me feliz enquanto treinador."

DESAFIOS

"Estes clubes contactaram-me porque queriam mudar algo. Em Leverkusen já foi assim. Também queriam mudar. Jogar um futebol diferente. Já o fiz algumas vezes. Até em Pequim. Para o estilo chinês, jogámos um futebol diferente. Em Eindhoven também o fiz, e agora idem. Quando já se fez isto em alguns clubes já sabes com o que contas, e estamos preparados para mudar rapidamente o estilo de jogo, apesar de se tratarem de clubes que jogavam um estilo de futebol diferente e que passaram a jogar outro estilo. Mas a experiência diz-me que, mesmo em pouco tempo, se pode conseguir muito."

Roger Schmidt

"[O Benfica] É enorme e sente-se na cidade o amor incrível que as pessoas tem pelo Clube. Isto deixa-me muito feliz por estar a treinar aqui"

"O ALTERNADOR"

"Eu não olho assim para tanta coisa. Ouço as pessoas, que pensam que eu poderei ser um bom treinador para eles, tento ficar com uma ideia. É claro que tenho de me sentir entusiasmado, como é o caso agora no Benfica. Quando me ligaram a dizer que me queriam contratar, pensei logo 'não há qualquer hipótese de deixar isto escapar'. Quando ouço algo assim fico logo a querer ir. O futebol é assim. Adoro futebol e é por isso que sou treinador. Poder treinar um clube assim é uma honra. Depois, é claro que olho para algumas coisas, mas entretanto tenho confiança, independentemente de pormenores, em poder treinar e liderar de forma a ter um resultado diferenciado. Tenho uma abordagem muito aberta. Não chego e tenho dez jogadas para as coisas correrem como já correram no passado. Eu trabalho dia a dia. Começo, recolho informação, tento perceber os jogadores, como jogam futebol, como pensam o futebol e tento todos os dias desenvolver as coisas para ter bons resultados, também na direção do futebol que eu quero que joguem. Não tenho um plano-diretor, quero é que as coisas se vão desenvolvendo dia a dia, passo a passo."

Roger Schmidt

"Queremos ser campeões. Queremos dar essa alegria aos adeptos, queremos que se orgulhem de nós"

DIMENSÃO DO BENFICA

"É claro que o Benfica, devido ao historial, ao seu valor em Portugal, a todo o seu passado, é um clube enorme, e sente-se na cidade o amor incrível que as pessoas têm pelo Clube. Sente-se todos os dias. Não é preciso estar cá muito tempo para o sentir, basta passar a noite num hotel e no pequeno-almoço do dia seguinte percebe-se logo o que é importante nesta cidade. É o futebol e o Benfica. Isto deixa-me muito feliz por estar a treinar aqui."

SAUDADES DE CASA

"O meu centro é sempre a Alemanha. Adoro a Alemanha e nunca hei de querer viver de forma permanente noutro sítio, mas é claro que a vida é bela quando se pode conhecer outras realidades. Aprendi a apreciar treinar no estrangeiro. É algo especial. É claro que cada um pode determinar que fica cinco anos num clube na Bundesliga, mas gosto de um pouco de aventura e de ver o futebol de diferentes pontos de vista. É isso que estou a viver em Portugal."

Roger Schmidt

"Sempre vi as pessoas, não só os jogadores. É preciso criar um sentimento de comunidade, em que cada um se sinta valorizado, importante e que cada um tenha no coração o sucesso da equipa"

OBJETIVOS

"Queremos ser campeões. Já era bonito. Já me disseram muitas vezes que há três anos que o Benfica não é campeão, e é algo que todos desejamos. Queremos dar essa alegria aos adeptos, queremos que se orgulhem de nós. Queremos jogar bom futebol, mas também conquistar títulos. Para isso damos tudo, e são os nossos objetivos."

GRUPO H

"No futebol nada é inultrapassável. Em primeiro lugar acho bom, porque nunca defrontei qualquer uma estas equipas. Com o Eindhoven defrontámos o Maccabi Telavive. É um verdadeiro grupo da Champions. É isto que se pode esperar quando se joga esta competição. Sabemos que é importante para o Clube, até por razões financeiras, mas é claro que a Champions é a melhor competição de clubes do mundo. Jogar aqui é o mais bonito que há no futebol e estou muito contente de poder voltar a estar nesta competição. É claro que é um grupo com PSG e Juventus não é fácil, mas não é impossível. Não nos satisfazemos com o terceiro lugar. Queremos passar à fase a eliminar."

Roger Schmidt

"A Champions é a melhor competição de clubes do mundo. É claro que é um grupo com PSG e Juventus não é fácil, mas não é impossível. Não nos satisfazemos com o terceiro lugar"

CHAMPIONS

"Sim, é sempre um ponto alto. Na Ásia também jogámos a Champions com o Beijing Guoan, a Champions asiática. Também foi interessante. De uma forma geral considero as competições internacionais excelentes. Se calhar também é por isso que trabalho no estrangeiro, porque quero conhecer outros países. Quer se trate da Liga Conferência, Liga Europa ou – de preferência – Liga dos Campeões. Estas competições internacionais são fabulosas e estamos desejosos."

Roger Schmidt 

"As condições aqui no Seixal são extraordinárias. De vez em quando tenho de me beliscar"

ESTRATÉGIA

"O Benfica é um clube vendedor. Sempre foi e deve continuar a ser, é assim que funciona. O que o Benfica faz é formar jogadores nas camadas jovens, lançá-los quando estão prontos e vendê-los. É entusiasmante, identifico-me com esta filosofia. Em Eindhoven era semelhante. Há clubes que não têm proprietários ricos a injetar dinheiro e têm de se financiar. Não é uma contradição. Estamos a tentar montar o melhor plantel para sermos competitivos, também tendo em conta que queremos jogar para o título."

ESTRUTURA

"Isso sente-se em todo o lado. Há muito apoio de quem trabalha no Clube, e as condições aqui no Seixal são extraordinárias. Estamos no campo praticamente a olhar para o rio. De vez em quando tenho de me beliscar."

Roger Schmidt

EQUIPA TÉCNICA

"É muito importante ter o Jörn ao meu lado como amigo, assistente e apoio. O papel dele vai-se modificando consoante o clube em que estamos. Naturalmente, para mim, ele é imprescindível. Ele e os outros que vieram comigo, porque conseguimos garantir a qualidade do trabalho, há coisas que já funcionam. Para mim, é igualmente importante ter pessoas comigo e que haja uma ligação entre nós, os alemães que vêm para o Benfica e o pessoal da casa. É essencial para que haja bom ambiente com o Clube e uma boa cultura. Nós temos de passar a fazer parte do Clube e não viver e trabalhar numa bolha, com tudo o resto lá fora. Isto foi algo que trouxe comigo destas experiências no estrangeiro, precisas de uma ligação com o clube. É preciso que sintam que tu não vens de fora e ficas de fora, mas que vieste fazer parte do Clube. É assim que nos devemos comportar. Quando há uma mistura na equipa técnica entre várias influências, é a melhor forma de desenvolver um espírito que nos leva todos a querer vencer. Quem quer ganhar competições, ser campeão, tem de fazer algo especial. Os campeões têm sempre algo especial e nós também queremos ter. O mais importante, o mais especial é ter uma boa cultura no Clube, que trabalhem todos bem uns com os outros e que todos se sintam valorizados. É isso a base para construir tudo o resto."

BOAS-VINDAS

"Logo desde o início houve muita energia positiva e abertura da parte do Benfica, de todos os colaboradores, temos tido muito apoio. É impossível ser mais bem recebido do que fomos. E é impossível ter mais colaboração no trabalho."

Texto: Redação
Fotos: Arquivo / SL Benfica
Última atualização: 8 de setembro de 2022

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