25 de outubro de 2020, 17h05

Jorge Jesus: "Ao longo das jornadas vamos estar mais fortes"

Futebol

Treinador do Benfica anteviu a partida com o Belenenses SAD da 5.ª jornada da Liga NOS.

ANTEVISÃO

O Sport Lisboa e Benfica, líder da Liga NOS, só com vitórias, recebe o Belenenses SAD na 5.ª jornada, segunda-feira, às 20h15, no Estádio da Luz. Em conferência de Imprensa no Benfica Campus o treinador Jorge Jesus lançou o desafio.

O técnico deixou avisos sobre a qualidade do adversário, admitiu que não fará grandes poupanças, aprofundou a explicação do motivo para Otamendi ter envergado a braçadeira de capitão na segunda parte do desafio com o Lech Poznan, considerou ter crescido muito como treinador nos últimos anos e escolheu o jogo mais marcante que viveu no Estádio da Luz.

O que mais teme deste Belenenses SAD orientado por Petit?

O Belenenses SAD é uma equipa muito bem organizada, que joga num 3x4x3 ofensivamente e apresenta-se em 4x5x1 defensivamente. Muitos treinadores estão a colocar isso em prática nas suas equipas, pelo menos em Portugal. Não é fácil fazer golos ao Belenenses, neste momento só tem dois golos sofridos. O Petit é um bom treinador. Foi um antigo jogador e tem a vantagem de conseguir olhar para o jogo de outra forma. Vai ser um desafio extremamente difícil.

Jorge Jesus Benfica

"Para mim, é tão importante não sofrer golos como marcá-los"

Jogar de três em três dias ajuda a equipa nas dinâmicas ou prejudica-a? Podemos esperar algumas poupanças para o jogo com o Belenenses SAD?

Não ajuda a criar dinâmicas, mas ajuda a melhorar dinâmicas. Porquê? Porque com os jogos podemos passar lições aos jogadores do que fizemos bem e do que podemos melhorar. Sabendo que não as podemos desenvolver na prática, mas podemos fazê-lo na teoria. A minha forma de pensar é nunca olhar para as minhas decisões como uma forma de fazer descansar os jogadores. Nos 14 meses em que estive no Brasil, vocês estavam atentos à minha carreira. Eles jogam de três em três dias e estavam habituados a mudar tudo de um jogo para o outro. Fiz-lhes ver que não era preciso mudar tudo, e é isso que vou continuar a fazer. Claro que com a extensão dos jogos já é diferente. Há fatores de fadiga em que temos de ter cuidado. Neste momento é o terceiro jogo seguido e vou ver se há um, dois ou três jogadores que possam estar carregados, vou ver com o departamento médico, que é muito importante nas decisões do treinador. Se mudar, não será muito, dois ou três jogadores, no máximo.

Tem dito que esta equipa do Benfica vai crescer ainda mais. Que aspetos gostava de ver já evoluídos no próximo jogo?

É natural que todas as equipas, ao longo das jornadas, vão estando mais fortes. O Benfica não vai fugir à regra. Ao longo das jornadas vamos estar mais fortes, sendo que num ou outro jogo é normal que possamos não estar tão bem, mas é para isso que trabalhamos todos os dias. Os resultados são prova disso. As questões defensivas são um ponto que debato bastante com os meus jogadores e com a minha equipa técnica. Para mim, é tão importante não sofrer golos como marcá-los. Estamos a trabalhar nesse aspeto, mas temos de ver que, nas últimas semanas, a última linha do Benfica mudou por completo. André Almeida fora, Rúben Dias fora e tivemos de mudar a nossa estrutura. Essas mudanças mexeram com os automatismos que a equipa já vinha a adquirir e a notar-se de jogo para jogo. Na Polónia já se notou que há que trabalhar muito mais a última linha.

Jorge Jesus Benfica

"Otamendi capitão? Tem estatuto e experiência de balneário"

Parece já ter um onze-base consolidado. Já disse que poderá fazer algumas mudanças. Pizzi ou Rafa no onze é uma dúvida que tem nesta altura?

São jogadores que já estiveram ao mesmo tempo no onze. Têm a vantagem de serem jogadores que já faziam parte do grupo. São atletas que, na minha opinião, podem jogar na mesma posição. Aliás, o Pizzi pode jogar na mesma posição do Rafa, o Rafa é que não pode jogar na mesma posição [interior] do Pizzi. Poderão jogar os dois.

Já falou que admite colocar a equipa a jogar com três defesas-centrais nesta época. Está a pensar nisso a médio prazo?

Fico muito contente por me fazerem perguntas sobre futebol. Essa foi uma das coisas em que cresci muito no Brasil. Nas conferências de Imprensa só se fala de futebol. Uma estrutura de três defesas, nos primeiros dez anos como treinador, era o sistema com que eu jogava. Trabalhava muito em 3x4x3 ou em 3x5x2. Sou apaixonado por esses sistemas, mas não são fáceis de trabalhar. Já o fizemos e, se calhar, vamos voltar a fazê-lo. Uma das grandes perdas dessa minha ideia foi a lesão do André Almeida, porque ele era o jogador certo para isso.

Jorge Jesus Benfica

"No Benfica tive momentos muito felizes neste Estádio"

Entregou a braçadeira a Otamendi na segunda parte do jogo com o Lech Poznan, após a saída de Pizzi. Que resposta lhe merecem os críticos dessa opção?

É uma decisão minha. Foi polémica e não sei porquê. Se calhar até sei… Os adeptos têm um contexto mais emocional; eu olho para os interesses do Benfica e da equipa. Não esquecendo o coração, mas tenho de ver outras coisas que também são importantes. O Benfica tinha cinco capitães de equipa. Um não vai jogar a época toda, infelizmente, que é o André Almeida, e outro saiu para o Manchester City [Rúben Dias]. Sobravam três. Tinha de incluir um capitão de equipa. Faço isto sempre que chego a uma equipa: se há três capitães, eu escolho um e passam a ser quatro, se são quatro, escolho um e passam a ser cinco… Então, dentro desses novos jogadores que chegaram, olhando para o perfil desportivo, vejo Vertonghen, que foi capitão no Tottenham e da seleção da Bélgica, vejo Otamendi, que foi várias vezes capitão do Manchester City e subcapitão da Argentina. São dois jogadores com currículo como capitães de equipa. Escolhi o Otamendi porque era o único que sabia português entre ele e o Vertonghen. Imaginem isto: o Benfica vai jogar com o Standard Liège... Se o Otamendi for o capitão de equipa, o árbitro vê e diz: 'Olha, é o Otamendi que jogou no Manchester City e na seleção da Argentina'. Tem estatuto! Para além de ser um elemento com experiência de balneário. Fala-se muito do capitão de equipa e dos anos que tem de clube. Há vários capitães que o são sem terem muito tempo de clube. O Bruno Fernandes está há poucos meses no Manchester United e já foi capitão de equipa, porque é um líder. Escolher o capitão por ter muitos anos de clube? Isso era no tempo do D. Afonso Henriques. O futebol hoje não é nada disso. Há vários princípios que eu defendo para se ser capitão de equipa: tem de se ter argumentos, não só passado no clube, mas também outros muito importantes.

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Luisão está afastado do plantel?

Fez-me uma pergunta sobre o Luisão... O Luisão foi um dos melhores capitães de equipa. Hoje trabalha na estrutura técnica da equipa, e porquê? Porque ser capitão é mais do que ter anos de clube. O Luisão está distante do grupo? Não! Alguém lhe deu uma informação errada. Ele está com a equipa diariamente, vê os treinos, está com a equipa no balneário e está comigo. O gabinete dele é ao lado do meu. Fui eu que o escolhi para fazer parte da equipa técnica, logo está comigo, não está afastado de mim.

Teve influência na renovação de contrato de Taarabt

Fico feliz pelo facto de o Adel [Taarabt] ter prolongado o seu contrato. Ele é um jogador com características diferenciadas para um segundo médio. Joga de área a área, tem uma capacidade técnica muito evoluída e fico muito satisfeito pela renovação dele. Já fez 60 minutos de boa qualidade na Polónia e amanhã [segunda-feira] vai jogar de certeza. Tudo isso está dentro daquilo que vai ser o crescimento do Benfica.

A renovação foi um pedido seu?

Esse era um processo que já estava a ser tratado antes da minha chegada. Agora, com a minha chegada, renovaram. Isso é da responsabilidade do Rui Costa e do Presidente, que tomaram, e muito bem, a decisão de renovar contrato com o Adel.

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"Qualquer treinador, ano após ano, fica mais treinador"

Numa entrevista recente, Luís Filipe Vieira disse que Jorge Jesus era uma pessoa diferente daquela que teve a primeira passagem pelo Benfica. Concorda?

Eu sinto que estou diferente. A minha saída de Portugal deu-me outros conhecimentos. Também aprendi algumas questões do plano técnico e tático, sobretudo nos 14 meses em que estive no Brasil, mas abriu-me outros horizontes e outras perspetivas de olhar para o futebol. Qualquer treinador, ano após ano, fica mais treinador. Quanto mais idade e anos de futebol um treinador tiver, melhor ele é. Se não for bom quando for mais jovem, também não vai ser muito melhor quando for mais velho. Os anos de conhecimento daquilo que é o jogo e todas as valências que um treinador tem de ter... O tempo em que estive fora de Portugal fez com que olhasse para o futebol de uma forma diferente.

Luís Filipe Vieira também disse que quase de certeza que se iriam entender para que pudessem estender o vínculo contratual. Acha isto possível?

Temos de viver o futebol no dia a dia. Eu sempre o vivi assim. Tudo muda repentinamente no futebol. Eu já disse isto... o Presidente quis fazer um contrato de quatro anos comigo. Eu não queria, só queria um ano e acabei por aceitar dois anos. O futebol é momento, no futebol ganhamos ou não, e eu não me iludo. No momento certo vamos ver o que vai acontecer.

Jorge Jesus Benfica

O Estádio da Luz faz hoje 17 anos. Qual foi o momento mais especial que viveu na Catedral?

No Benfica tive momentos muito felizes neste Estádio. O que mais me marcou como treinador deste Clube foi a meia-final da Liga Europa diante do Fenerbahçe. Perdemos 1-0 na Turquia e vencemos por 3-1 na Luz. Foi um jogo muito emocionante, o Estádio da Luz estava esgotado e com um ambiente incrível. Esse se calhar foi um dos desafios que mais me marcaram porque nos levou a uma das finais da Liga Europa.

Qual é a sua opinião sobre a antecipação das eleições no Benfica [de 30 para 28 de outubro]?

As eleições são algo que não têm a ver com o jogo. Julgo que quanto mais rápido acontecerem, melhor é para a estabilidade do Clube. Para a equipa não falta nada. Esta estrutura e este Presidente não deixam faltar nada aos jogadores do Benfica, o que falta é ganhar títulos e é para isso que estamos cá.

Texto: Diogo Nascimento e Marco Rebelo

Fotos: Tânia Paulo / SL Benfica

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