Futebol

02 fevereiro 2021, 21h30

Pedro Pinto, CCO do Benfica, conduziu a entrevista ao administrador Rui Costa

ENTREVISTA 

Rui Costa, administrador da SAD do SL Benfica, abordou o momento atual da equipa de futebol profissional, fez o balanço da primeira parte da temporada e enunciou as ambições face aos desafios que se aproximam, em entrevista exclusiva à BTV.

O Benfica, a nove pontos do primeiro lugar na Liga NOS, acabou de assinar o adeus ao título com a derrota no dérbi, tal como muitos comentadores têm afirmado?

De todo. Compreendo que, para muita gente, possa parecer estranho. Estamos a nove pontos do primeiro classificado, mas é expressamente proibido no Benfica, a uma jornada de terminar a primeira volta, alguém pensar que o Campeonato está acabado. Esta mensagem é para dentro e para fora. Não estamos na posição em que queríamos estar, mas estamos longe de poder mandar a toalha ao chão. Nem nos jogos amigáveis o Benfica pode entrar em campo sem ser com o objetivo de ganhar. A ambição tem de ser sempre a mesma, e hoje mais do que nunca, até por uma razão muito simples: fomos nós que nos colocámos nesta posição, somos nós que temos de sair dela.

"É expressamente proibido alguém pensar que o Campeonato está acabado"

Como é que o Benfica se colocou nesta posição e o que é que vai fazer para sair dela?

É uma época extremamente atípica, que fugiu, até aqui, às nossas reais expectativas, à forma como preparámos a época. Assumimos, sem esconder a cabeça, que jamais pensámos que pudéssemos chegar a esta altura do Campeonato com este atraso em relação ao primeiro classificado. Posso adiantar uma série de razões que justificam de alguma forma o que tem sido a época, mas também sei que não é isto que o nosso adepto quer ouvir. O nosso adepto, hoje, faz a conta a estes nove pontos, a que perdemos uma Supertaça, uma Taça da Liga e que saímos da Liga dos Campeões. É este assumir de responsabilidade que eu pretendo fazer e não justificar, com muitas das coisas que fazem parte de uma época, a forma como chegámos a este ponto.

Rui Costa Entrevista BTV

Há um assumir de responsabilidade, mas esta não é só do Rui Costa...

Não se chega a este ponto da temporada, com este atraso no Campeonato, sendo responsabilidade de apenas uma pessoa. Dentro da estrutura do futebol (todos os elementos que gravitam à volta da equipa, o staff, a equipa técnica, os jogadores...), ninguém sai ilibado desta responsabilidade. O primeiro ponto de honra que todos temos de fazer ao dia de hoje é, todos juntos, assumir essa responsabilidade. Temos de ter a plena consciência de que o que foi feito até ao momento não é o que estava idealizado, não é o que foi preparado para ser feito e, portanto, vamos assumir todos nós, comigo à cabeça, a responsabilidade do que aconteceu até este momento. Porém, a época ainda é longa, e é daí que também pego para dizer que ninguém está autorizado a mandar a toalha ao chão. Antes pelo contrário, é neste momento que se vai ver quem tem capacidade para representar um clube com a dimensão do Benfica. E este é um aviso para todos nós, onde eu me incluo. É uma responsabilidade muito grande representar este clube, mas é uma responsabilidade ainda maior abandonar uma época a meio. Até ao final da época vamos ver quem são os homens que temos dentro de casa para assumir esta responsabilidade e para dar a volta a esta situação. Temos tempo para fazê-lo. Pode parecer quase impossível, são nove pontos de atraso, mas também ainda faltam 18 jogos. A dificuldade que temos neste momento fomos nós que a criámos. Temos de ser nós a ter capacidade para sair dela.

"Vamos assumir todos, comigo à cabeça, a responsabilidade do que aconteceu"

É um momento de carácter e ninguém está autorizado a desistir...

É um momento para gente de grande carácter, é um desafio muito grande que temos pela frente e que devemos aos nossos adeptos. Posso enumerar uma série de razões para uma época não tão conseguida como queríamos. É uma época efetivamente muito atípica, posso elencar aqui tanta coisa que justifica muito do que tem sido feito, mas tenho a plena consciência de que isso provoca ainda mais dissabor no nosso adepto. Toda a gente sabe o que passámos em janeiro no Seixal, não só com os jogadores que tivemos ausentes [infetados com COVID-19], mas também com 20 pessoas do staff, e quando começámos a recuperar estas pessoas, acabámos por perder o nosso treinador.

Rui Costa Entrevista BTV

Isso mexe com as dinâmicas do plantel?

Mexe com as dinâmicas, até com a consistência da equipa, mas não justifica tudo. Não é essa a mensagem que quero passar, não é por isso que estou aqui, não é por isso que na semana passada combinámos esta entrevista no sentido de explicar às pessoas o que é que tinha acontecido nesta primeira parte da temporada. Portanto, não é a isso que me vou agarrar, nem para fora, nem, muito menos, para dentro, para eliminar a nossa responsabilidade do facto de hoje não estarmos na posição onde todos queríamos estar.

Os jogadores sentem essa exigência por parte dos adeptos e sentem também essa exigência perante eles próprios?

Temos até ao final da temporada 18 jogos do Campeonato, temos uma Liga Europa e temos uma meia-final da Taça de Portugal para disputar também. Três competições onde estamos inseridos e onde procuraremos fazer de tudo para as conquistar. Quem não estiver em condições de assumir essa responsabilidade não irá fazer parte do grupo. Isto é ponto assente. E não vale só para uma das partes ou componentes do grupo de trabalho. Vale para todas as componentes do grupo de trabalho, onde eu me incluo. É um momento para homens de grande coragem, atletas de grande coragem, treinadores de grande coragem e dirigentes de grande coragem. Nós representamos o maior clube do País, sabemos todos a responsabilidade que é representar esta camisola. Eu tenho esse prazer há 40 anos, esse orgulho, e quem não conseguir sentir isso, quem não conseguir sentir essa vontade, ou quem temer essa responsabilidade, não pode encarar este desafio da maneira como nós queremos encarar.

"Quem temer a responsabilidade de representar esta camisola não pode encarar este desafio como nós queremos"

Estão identificadas as causas que levaram o Benfica a chegar a esta situação?

O que os nossos adeptos hoje certamente pretendem ouvir é como é que chegámos aqui e como é que podemos sair deste momento negativo. Há muita causa identificada, efetivamente, há muita causa para explicar o insucesso, ou o menos sucesso da equipa até aqui. E aquilo que nós, internamente, procuraremos fazer até ao final da época é eliminar esses erros, é procurar uma responsabilização muito maior da parte de quem está a representar o Clube, seja em que área for, de forma a darmos a volta a esta situação. Ninguém está autorizado a mandar a toalha ao chão e, dessa mesma forma, percebendo que possa haver elementos que não tenham a mesma coragem do que aqueles que querem virar esta situação, não podem fazer parte do grupo.

Qual o estado de saúde do míster Jorge Jesus? Quando poderá regressar ao banco do Benfica?

Foi outra perda importante. O míster Jorge Jesus está melhor, está a recuperar bem, mas não conseguimos dizer ainda quando é que ele estará presente, quando é que pode voltar a treinar. Esperemos que o mais breve possível, mas neste momento a maior preocupação é pela sua saúde e não pelo dia em que ele volta a treinar a equipa. Em relação ao Jorge Jesus, esta é a nossa principal preocupação. Deixá-lo recuperar bem porque, de facto, isto não é uma brincadeira e quando se mete a saúde tudo o resto vai para segundo plano.

"O míster Jorge Jesus está melhor, a recuperar bem"

Na sexta-feira há jogo com o Vitória de Guimarães na Luz. O jogo é de três pontos, é para vencer com toda a ambição numa primeira etapa de mudança daquilo que tem sido o curso do Benfica?

Não é só para vencer, é para dar uma resposta ao que tem sido feito. Tudo o que eu diga hoje que vá para além daquilo que é o campo de futebol, o jogo e a bola entrar, ou não, na baliza soa a desculpa, mas, neste momento, temos a equipa toda à disposição, que era uma coisa que não tínhamos há um tempo. Não temos o nosso treinador, é uma verdade, mas temos qualidade suficiente para assumir as nossas responsabilidades. É isso que se pretende que seja já feito no próximo jogo.

Rui Costa Entrevista BTV

Qualidade suficiente e também todas as condições… O Seixal continua a ser uma referência?

É indiscutível! Condições como o Benfica dá aos seus profissionais duvido que alguém tenha melhor. Podem ter igual, mas não têm melhor! Essa é uma conquista do nosso Clube ao longo dos anos, portanto, por esse caminho ninguém se pode queixar. Não há nenhum profissional do Benfica no Seixal que se possa queixar de falta de condições, portanto, nunca poderá ser por aí.

Isso sublinha ainda mais o sentido de exigência?

Claramente! Quando conseguimos dar a todos os profissionais todas as condições possíveis e imagináveis para desempenhar um bom trabalho, obriga a uma exigência ainda maior. É isso que temos procurado dar ao longo dos anos a todos os profissionais do Benfica, portanto, também temos esse direito de fazer uma exigência ainda maior.

Quanto ao que tem sido a relação com a Liga Portugal, com a arbitragem e com o mundo exterior do futebol, há muitas críticas por parte de benfiquistas que olham para o Benfica como estando pouco vociferante, com pouca presença pública na exigência do que são as questões dos penáltis e das arbitragens. É uma crítica que faz sentido?

"[Com o caso João Palhinha] Abriu-se um precedente extremamente perigoso"

Não me faz sentido até aqui. Temos tentado respeitar todas essas entidades de forma a que elas possam fazer também o seu trabalho, mas, se calhar, estamos enganados. Olhando para o panorama do futebol português, se calhar temos de fazer como outros…

Mas não faz mais sentido uma estratégia de credibilização, uma estratégia construtiva e positiva relativamente ao futebol português?

É exatamente isso que temos tentado fazer. Temos tentado dar esse exemplo. Mas, se olharmos para o exemplo de ontem [jogo com o Sporting] – e não foi por o João Palhinha jogar, ou não, que o resultado do Benfica se alterou –, abriu-se aqui um precedente que não sei como se vai alterar no futuro. Nós tivemos o caso do Otamendi [5.º cartão amarelo e um jogo de castigo], expusemos o caso e tivemos uma resposta diferente. E se todos os clubes hoje se manifestarem da mesma forma, quantos cartões amarelos é que vão ser retirados a jogadores? Quantos cartões amarelos foram mal dados em jogos que até nem têm a mesma importância dos do Benfica, FC Porto ou Sporting? Abriu-se aqui um precedente extremamente perigoso e é a isto que temos de estar atentos. O facto de não falarmos todos os dias publicamente, ou não estarmos em gritaria, não significa que estejamos desatentos ao que se passa. Absolutamente! O facto de não termos nenhum penálti até ao dia de hoje não é uma coisa que nos passe ao lado. Mas, repito, temos tentado respeitar todas as entidades que envolvem o futebol. Se isto não basta, então, se calhar, temos de atuar como os outros e mudar o nosso rumo também.

"Sinto extrema confiança de que é possível chegar ao final do Campeonato com o título na mão"

Rui Costa Entrevista BTV

Em termos de balanço desta primeira parte da temporada, nada está perdido, não vale desistir, ainda há muito por conquistar…

Há aqui duas mensagens claras: a responsabilização por aquilo que não fizemos até ao momento e que deveríamos ter feito, o não mandar a toalha ao chão; e termos aqui um caminho pela frente para percorrer, o qual me faz estar, neste momento, com uma extrema confiança de que é possível chegar ao final do Campeonato com o título na mão. É neste sentido que vamos trabalhar e procurar eliminar todos os erros que cometemos até aqui. Se vamos tarde, ou não, só lá à frente é que vamos saber. Mas, até lá, ninguém vai mandar a toalha ao chão. As mensagens que pretendo passar, sobretudo para dentro do balneário, é que quem não estiver disposto a este sacrifício e empenho em representar um clube desta dimensão não vai lá estar dentro. E se estivermos todos, temos todas as condições para ainda chegar ao título. É isso que vamos procurar fazer dia a dia.

"Quem não estiver disposto a este sacrifício e empenho em representar um clube desta dimensão não vai lá estar dentro"

Não basta chegar ao jogo e fazer um malabarismo, um carrinho… É trabalhar dia a dia para que seja possível chegar ao dia do jogo e ganhar. Esse é o nosso objetivo, é aquilo que os nossos adeptos querem. Não querem saber – e respeito isso perfeitamente – quantos casos de COVID-19 tivemos, ou que problemas tivemos ou deixámos de ter. Nós temos de assumir e respeitar isso e, acima de tudo, entrar em campo sabendo que clube representamos, quais as nossas responsabilidades, e que no final do dia temos de ganhar o jogo. Ponto final.

Texto: Filipa Fernandes Garcia, João Sanches, Marco Rebelo e Sónia Antunes
Fotos: Cátia Luís / SL Benfica
Última atualização: 2 de fevereiro de 2021

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