Atletismo

31 março 2021, 23h03

Pedro Pichardo

GRANDE ENTREVISTA

Pedro Pablo Pichardo, campeão da Europa de triplo salto em pista coberta, em 7 de março deste ano, com um salto que ficou estabelecido em 17,30 metros – e muito longe da concorrência –, concedeu uma grande entrevista à BTV.

Um dos melhores na especialidade de triplo salto, que tem como treinador o seu pai, Jorge Pichardo, o atleta benfiquista revelou enfoque nos Jogos Olímpicos de Tóquio, onde vai ter a oportunidade de se estrear num dos maiores eventos mundiais.

Pichardo

Sonhos cumpridos em Torun

"Foi um momento muito feliz ter conquistado o ouro e cantar o hino nacional. Estava à espera de cantar o hino há dois anos, mas as coisas não se proporcionaram. Neste Campeonato da Europa, quando venci, foi um momento muito feliz. Tinha a máscara, e as pessoas não me viram cantar, mas cantei e estava extremamente contente."

Ambientação à língua

"Tenho uma professora que o meu amigo Luís Filipe me tinha arranjado aquando da minha chegada a Portugal. Combinámos e começámos a ter aulas, mas, entretanto, começaram as competições, e foi mais difícil de continuar. Sinto que estou em dívida para com ela… Tinha a intenção de continuar. Com o tempo, espero retomar novamente as aulas. A adaptação à língua não é fácil, porque o espanhol é a língua materna, e o sotaque português não é fácil. Sei que, a nível de pronúncia, ainda não estou a 100 por cento. Pessoalmente, gostaria de falar melhor português, e há pessoas que me dizem que para o tempo que estou cá, até estou bem, mas quero continuar e falar melhor."

Pedro Pablo Pichardo

Marca de 17,30 metros na Polónia

"Faltou o meu grande salto. Posso revelar-vos o que eu e o meu treinador estávamos à espera de fazer nesse dia: saltar acima de 17,70 centímetros, pelos menos. Achávamos que deveria ter conseguido essa marca, até porque estava em boa forma e aqui, nos treinos, tínhamos atingido pormenores que davam para atingir essa meta. Estávamos à espera e à procura desse grande salto, mas acabei por ficar conformado com os 17,30 metros… Os meus adversários também não puxaram muito por mim, e aquela marca chegava. Não exigi mais, e essa foi a parte má que tive em Torun."

Importância da competitividade

"No triplo salto, uma das melhores provas que tive foi entre mim e o Christian Taylor [atual campeão mundial e olímpico], onde estávamos a puxar um pelo outro para atingir o melhor salto. Isso é importante na altura de saltar."

Pedro Pichardo, Benfica

Reação às mensagens e distinções

"Tenho 27 anos e algumas medalhas, incluindo mundiais. Nunca tinham reconhecido os meus feitos até agora. O vice-presidente da Federação disse-me para estar atento ao telemóvel porque o presidente me ia ligar, mas não pensei que fosse a sério. Passada meia hora, estava no quarto a falar com o treinador, e o presidente ligou-me… Deu-me os parabéns e estava muito feliz por os atletas terem vencido 3 medalhas de ouro no Campeonato da Europa. Fiquei muito contente. Era o reconhecimento que faltava, e que acho que merecia. Nunca tinha recebido este reconhecimento tão grande. No Benfica sempre reconheceram o meu trabalho, mas, além do Benfica, não tinha acontecido nada. Agora, posso dizer que me sinto totalmente integrado em Portugal."

Pedro Pichardo, Benfica

Papel importante no Benfica

"O Benfica tem sido fundamental, e a maior parte dos meus resultados em Portugal pertence ao Benfica. Foi o Benfica que me ajudou a ser português e que me deu as condições que tenho neste momento para treinar e a tranquilidade de que precisava."

Adaptação a Portugal

"Tive muitos colegas de equipa que me ajudaram na integração e que me enviaram mensagens a dizer para não me preocupar, porque, mais tarde ou mais cedo, as pessoas iriam ficar satisfeitas e felizes comigo. A família também ajudou bastante. Relativamente à língua, ainda não estou totalmente adaptado nem confortável, porque ainda não falo bem… Sou muito perfecionista, tanto nos treinos como na minha vida pessoal. O povo, em Cuba, é diferente. Cá, quando tens um bom resultado, as pessoas cumprimentam-te na rua, enviam mensagens, mesmo que não falem contigo."

Mudança para a pista de Setúbal

"Houve algumas coisas que me levaram a procurar uma alternativa. Em Lisboa, existia uma grande confusão devido à rivalidade entre clubes e, como ainda não tinha a nacionalidade portuguesa, foi muito complicado… Tinha de treinar no Estádio da Luz. Em Palmela, no Pinhal Novo, arranjei uma casa, e o meu pai, em conversa com o presidente da Federação, pensou que fosse possível o presidente colocá-lo em contacto com pessoas aqui de Setúbal. Em conversa com todos, inclusive com a diretora do Benfica Olímpico, a Ana Oliveira, eles começaram a tratar das minhas condições aqui. Estou cá há 3 anos e meio. O Benfica ofereceu-me muitas máquinas de musculação e muito material. Sempre que falo com o Benfica, nunca existe um não como resposta e nunca me faltou com nada."

Distinção pela Câmara Municipal

"Fiquei muito emocionado. Não me lembro de ter sido reconhecido com esta magnitude. Quando o presidente me entregou a chave da cidade de Setúbal, não tinha palavras. Só conseguia dizer obrigado: pelo apoio e pelas condições dadas para prosseguir com a minha carreira desportiva. Se não tivesse estas pessoas todas à minha volta, principalmente o Clube, a Federação, a Câmara e alguns dos amigos que aqui tenho hoje em dia, a minha carreira tinha acabado."

Pedro Pichardo, Benfica

Treinos em período de COVID-19

"Existiu um período em que foi difícil, porque ninguém podia mudar de concelho. Fiquei em casa, mas, depois, deram-me uma autorização onde podia sair de casa para treinar. Tive a oportunidade de voltar e não parar nem um dia. Tinha a chave e treinava todos os dias. Foi um privilégio ter continuado a treinar."

Carácter otimista

"Na minha cabeça, não pode existir nada negativo. Se existir, tenho de afastar. A negatividade não faz parte da minha vida. Tento sempre ver o lado positivo de cada situação, porque, quando algo negativo entra na cabeça, é difícil de sair."

Pedro Pichardo, Benfica

Cautelas

"Ainda não sou um grande atleta. Tenho de atingir muitas medalhas e grandes resultados, para ser um grande atleta. Estou no caminho certo."

Treinos dados pelo pai

"Como treinador e como pai, conseguimos separar as coisas, mas às vezes ele funde as duas coisas, principalmente em casa. Há algumas alturas em que digo que hoje não consigo, então ele pressiona-me, e eu fico chateado, porque estou cansado e não consigo… Mas ele é que me dá força para que eu consiga."

Pedro Pichardo, Benfica

Interesse pelo atletismo

"Comecei a praticar aos 6 anos com a minha irmã. Ela fazia atletismo num terreno de basebol, e levou-me para experimentar. Comecei a correr com ela e pratiquei mais a sério aos 10/11 anos. Comecei a participar em competições e a ganhar, onde ficava extremamente contente, e a partir dos 14/15 anos entrei no triplo salto. Gostava mais de fazer salto em comprimento, mas, na altura, tinha de fazer uma equipa para os nacionais. Experimentei, saltei 12,92 metros e ganhei. A partir daí, tive de deixar o comprimento e começar a treinar o triplo salto."

Contacto com a família

"Em Cuba, as redes sociais são limitadas. O mais fácil é falar por telemóvel, mas os custos da chamada são altos, porque um minuto fica a 1,10 euros. É difícil falar com a família toda, mas vamos mantendo o contacto que é possível."

Pedro Pichardo, Benfica

Vontade de voltar a Cuba?

"Não tenho... Sinto-me magoado, com o governo e com as entidades desportivas. Passei por muitas dificuldades, e fizeram com que, pouco a pouco, me despedisse deles."

Chegada ao Benfica

"Não acreditava que ia fazer parte deste grande clube. Tive muitas pessoas que me falavam do futebol e do atletismo do Clube, assim como dos títulos. Quando cheguei, fiquei impressionado com a história e, quando fui treinar para o relvado do Estádio da Luz, fiquei ainda mais incrédulo."

Pedro Pichardo, Benfica

A sua referência do desporto?

"A Telma Monteiro. Admiro-a muito e tem conquistado muitas medalhas, além de ter um extenso currículo. Ainda não pedi conselhos [para os Jogos Olímpicos], mas ela, de vez em quando, envia-me mensagens de força, e fico muito orgulhoso quando vem de uma atleta como ela."

Preparação para os Jogos Olímpicos

"O Campeonato de Clubes é muito importante para o Benfica, mas também para mim. Também vou participar na Superliga, nos meetings da Liga de Diamante e nos Jogos Olímpicos, que vai ser a prova mais importante do ano e da minha carreira. Nunca participei nos Jogos Olímpicos, e, agora, participar pela primeira vez e por Portugal vai ser uma competição muito emocionante. Estamos a trabalhar em pormenores que, até lá, podem culminar com uma grande prova. Existem coisas sempre a melhorar, e é nisso que estamos a trabalhar."

Pedro Pichardo, Benfica

Liga Diamante

"Arranca no início de junho, e é aí que vou começar a ter a minha preparação para os Jogos Olímpicos Na minha última participação, senti que estava mais próximo daquilo que queria. Quando olhei para a placa com o resultado do meu salto [17,40 metros], e logo na primeira prova do ano ao ar livre, fiquei impressionado."

Objetivo claro na mente

"Ganhar competições e trazer o ouro para o meu país, para que todos fiquem orgulhosos com a minha presença cá. Para o futuro, tenho a meta de 18 metros nos Jogos Olímpicos. Se eu quiser ganhar competições, tenho de saltar essa distância, se não, não vou conseguir trazer o ouro para Portugal. Comecei o ano com um grande feito, que foi a medalha de ouro no Campeonato da Europa de pista coberta, e foi um bom início. Agora, é continuar a trabalhar para conquistar a medalha de ouro em Tóquio."

Fotos: Isabel Cutileiro e Arquivo / SL Benfica
Última atualização: 9 de abril de 2021

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