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25 outubro 2017, 16h44

O administrador-executivo da Sport Lisboa e Benfica, Futebol – SAD, Domingos Soares de Oliveira, concedeu uma entrevista à BTV no dia em que se assinalam 14 anos do novo Estádio da Luz. Na hora de fazer um balanço, o dirigente tocou em várias temáticas do passado, do presente e lançou as bases para o que se segue.

 

PRESIDENTE LUÍS FILIPE VIEIRA

“Ele é uma pessoa que pensa sempre mais em termos emocionais. Se analisarmos a estratégia do Benfica para 10 anos, o presidente tem uma visão sempre diferenciada. Nós pensamos no que podemos implementar e ele tem a visão do sonho. Esse sonho foi o que o comandou ao longo da sua vida. Se virmos a pessoa que nasceu no Bairro das Furnas e o que é hoje, percebemos que perseguiu sempre os seus sonhos. Sonha que pode dar três passos e dá sempre mais um do que o comum dos mortais. Essa é uma das suas características.”

“Se virmos o estádio hoje, com 14 anos, parece que é novo; se nos lembrarmos das transformações que sofreu… Tivemos aqui a final da Champions, em 2014, e a UEFA estava preocupada com o sistema de som, pediu um e Luís Filipe Vieira disse que o que existia era igual ao que têm os nossos adeptos. É esta forma de pensar que nos tem levado muito mais além. Quem olha para o estádio percebe que as pinturas continuam novas, a estrutura também. Por dentro, o estádio está preparado para receber cada vez mais empresas. Esta transformação vai continuar, pelo menos, por mais 14.”

 

 

ESPAÇO VIRADO PARA AS EMPRESAS E ENTRETENIMENTO

“Hoje funcionamos todos dentro do estádio, mas o mesmo não foi concebido para ser um espaço de escritórios. Queremos que o estádio, no seu todo, esteja dirigido ao entretenimento. Nas modalidades é diferente, porque a atividade é diária nos pavilhões. O que temos estado a pensar é: como conseguir que este estádio seja mais rentável nos dias em que não há jogo? Temos o ginásio com a parceira com o Jazzy, um conjunto de áreas comerciais… Milhares de pessoas circulam por dia no estádio. Temos a restauração, visitas e ainda os nossos parceiros que escolhem o nosso estádio para reuniões. Todos os dias temos eventos no estádio.

“Temos várias empresas que querem ser parceiras do Benfica e que nos procuram. A maior dificuldade é o estacionamento e o serviço de catering, mesmo sem haver jogo. O estacionamento não conseguimos resolver, mas há transportes públicos. O facto de trabalharmos todos no estádio hoje, pode não ser uma realidade dentro de 10 a 15 anos. Queremos que seja um género de sala de espetáculos. Primeiro com futebol, mas também com outras possibilidades.”

 

BILHÉTICAS E ASSISTÊNCIAS

“Há várias tendências claras. Uma delas é a materialização de bilhete. Hoje, quando compramos um bilhete de avião online, temos o código de telemóvel e conseguimos fazer o check-in, desbloquear as portas… Essa é a tendência. Haverá um momento em que não teremos bilhetes físicos. Não é para já, mas será mais cedo do que se pensa. Noutro momento nem bilheteiras haverá. As pessoas compram tudo online. Assim poderemos controlar melhor a ocupação do estádio em tempo real e ter uma dinâmica de preços muito específica. Hoje há zonas com lista de espera, com muita procura e outras que nem sequer estão esgotadas, por variadíssimas razões. Isso permite-nos ter uma dinâmica de preçário. Há cerca de 14 fatores que influenciam as assistências: hora, dia da semana, clima, estado de forma da equipa… O preçário vai acompanhar estes fatores de forma mais aprofundada.”

 

Domingos Soares de Oliveira

 

NAMING DO ESTÁDIO

“Se fizermos a comparação com o Arsenal, que tem o estádio semelhante ao nosso, as pessoas têm a perceção que vão ao estádio do Arsenal, mas também ao Emirates. Uma coisa não invalida a outra. O que temos de analisar é: quantas pessoas são impactadas pelo nome do estádio? Se compararmos com a camisola… As pessoas dizem camisola do Benfica e não da Fly Emirates. É muito este o processo. Tentamos valorizar a nossa exposição mediática, nomeadamente nos jogos europeus. Hoje sabemos que, em média, 78 milhões de pessoas veem jogos do Benfica na Europa. Não nos preocupa o nome do estádio; aquilo que nos importa é que o patrocinador perceba o retorno que lhe damos.

 

CLUBE VIRADO PARA O TURISMO

“Temos feito o esforço certo. Conseguimos atrair agora um número de turistas que não é comparável ao que atingíamos há 10 anos, nomeadamente nos meses de verão. Estamos a pensar fazer visitas sem guias, porque não temos capacidade para acompanhar a totalidade de visitantes. Estamos a fazer um trabalho com operadores. Há autocarros que vêm ao estádio e isso traz-nos milhares de turistas estrangeiros. O mesmo acontece na loja da Baixa em que cerca de 90 por cento dos visitantes são estrangeiros. Este é um aspeto que temos vindo a dinamizar e estamos satisfeitos. As ligas espanhola e inglesa têm uma visibilidade de espetáculo mundial. Numa qualquer província da China todas as pessoas sabem quem é Messi, Ronaldo, Real Madrid ou Barcelona. A nossa Liga não tem a mesma exposição por culpa do mercado, dos dirigentes, dos clubes, dos operadores televisivos… Enquanto a Liga não for vista de forma global, é mais difícil que um turista venha ao Estádio da Luz do que vai ao Camp Nou.”

 

 

O FUTURO DO FUTEBOL PORTUGUÊS

“Já houve momentos de tensão entre clubes e momentos em que os clubes conseguiram falar. Hoje encontramos pessoas nos nossos concorrentes com quem conseguimos falar e outros que não. No momento atual não é possível, mas haverá uma altura em que será possível que os três clubes grandes se possam juntar à mesa e conversar. Depois há outros players. Na componente das transmissões televisivas que são os operadores. Os grandes operadores de telecomunicações conseguiram chegar a um acordo entre eles sobre os valores a pagar aos clubes. Seja pelo lado dos clubes ou do lado das telecomunicações houve momentos em que se conseguiu ter sentido de estado. Se os clubes, a Liga de Clubes, a Federação Portuguesa de Futebol e os operadores se sentarem à mesa todos teremos a ganhar, pois conseguiremos sair lá para fora. No ranking da UEFA, o Benfica está a rondar o top 10, mas em termos de visibilidade está em 15.º ou 17.º.”

“Os nossos adeptos virão sempre ao Estádio da Luz. Só poderemos dar um salto qualitativo até em termos de jogadores, a Liga NOS tem de ser vista lá fora e ir buscar dinheiro lá fora. Quase 80 por cento das receitas do Benfica vêm de fora de Portugal.

 

AS CONTAS DA SAD, DO CLUBE E O ESTÁDIO DA LUZ COMO MAIOR ATIVO

“Os nossos ativos são intangíveis (atletas) e tangíveis (construções). Se olharmos para os ativos, o maior é o estádio. É o que tem maior valor. Temos amortizado o estádio, mas temos investido tanto nas infraestruturas do estádio, nas condições dadas aos adeptos que o valor do ativo não baixa. Isso enche-nos de orgulho. Quem entra no estádio vê que ele está em ótimo estado. Foi construído há 14 anos e não parece. Não sei quanto tempo mais durará este estádio, mas acredito que sejam mais 50 anos. Temos tido a capacidade de não o deixar envelhecer.”

 

EMOÇÃO E RAZÃO, MUNDO EMPRESARIAL E BENFICA

“Tive várias experiências antes de vir para o Benfica. As duas grandes diferenças entre o Benfica e as multinacionais onde trabalhei são a componente emocional. Nas empresas não há a emoção, a não ser que tente fazer a associação emocional. Nós temos o contrário. Emoção é o que existe! Não queremos perder a emoção, mas não podemos esquecer a parte racional. Vou citar um exemplo inglês… O clube é bem gerido, os acionistas estão satisfeitos, mas não ganha nada a uma série de anos. O objetivo final de qualquer clube é ganhar no relvado. Por isso é que digo que não nos podemos esquecer nunca da componente emocional. Os que trabalham no Benfica vivem as conquistas de uma forma diferente do adepto, costumo dizer. Porque temos de pensar logo na componente racional, com resultados económicos, com melhorias de contratos, com venda de Red Pass… O segundo aspeto diferente é o empreendedorismo. Todos somos empreendedores. A parte boa é que não temos acionistas a dizer que não podemos ir para a China, que não se podem colocar os jogos na BTV, por exemplo. Temos grande liberdade de atuação, mas com ela vem a responsabilidade, porque se falharmos é por nós.”

 

APOSTA NA ERA DIGITAL COM NOVOS PLAYERS

“Ainda recentemente, na reunião de quadros, desenhámos um projeto para 10 anos. Tem uma série de alterações significativas em relação ao mercado. Estamos obcecados com o digital, mas sabemos que há outros atores como o Facebook e a Google que vão entrar no mercado e vão lutar pela transmissão de jogos. Agora pensamos em vender à NOS, Altice ou Vadafone. Mas qualquer dia pensamos na Amazon, no Facebook ou na Google. Estas são tendências disruptivas que vão influenciar o mercado. Estamos a lançar o novo Site e a nova APP.

“Percebemos também que a tendência ao nível da equipa de futebol é a seguinte: se conseguirmos aumentar a retenção dos atletas no Benfica, com dois jogadores a lutar pela mesma posição podemos pensar em ganhar a Champions League. Eles já cá estiveram não há muito tempo. Estamos a pensar no que podemos fazer para continuar a atraí-los, mas sobretudo retê-los. Depois vamos investir nas capacidades físicas individuais de cada atleta. Sou crente que as capacidades físicas dos atletas vão melhorar e os recordes vão ser batidos, isto porque vai haver mais conhecimento. Se aplicarmos isto no Benfica, vai ajudar-nos no desenvolvimento. Isto sempre a pensar na exportação da marca Benfica, porque queremos ser uma referência mundial.”

 

GANHAR COMO OBJETIVO PRIMEIRO

“Não podemos perder de vista que o primeiro e grande objetivo do adepto é vencer no relvado. Quando pensamos em exportar a marca, isso tem o objetivo de gerar receita para investir na equipa de futebol. Só assim podemos ganhar mais vezes no relvado e nos pavilhões.

 

Texto: Marco Rebelo

Última atualização: 7 de novembro de 2017

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