13 de março de 2020, 18h00

"Temos de ser sempre mais rápidos e inteligentes do que os maiores da Europa"

Clube

Domingos Soares de Oliveira, CEO do Sport Lisboa e Benfica, concedeu uma entrevista ao jornal online SportsPro.

Conhecidos os resultados financeiros históricos da SL Benfica – Futebol, SAD no primeiro semestre do exercício 2019/20, Domingos Soares de Oliveira foi entrevistado pelo jornal online SportsPro. Entre vários temas, o CEO explicou a política de crescimento sustentado do Clube. 

Os 104,2 milhões de euros de lucro comunicados, no dia 6 de março, pelo Sport Lisboa e Benfica à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) foram um dos assuntos relevantes na entrevista com Domingos Soares de Oliveira.

Questionado sobre a estratégia de crescimento comercial do Clube, o CEO do Benfica foi perentório: "Temos de ser sempre mais rápidos e inteligentes do que os grandes clubes. Antecipar qual vai ser a tendência do mercado para os próximos anos e ser mais rápidos, relativamente à implementação das nossas estratégias. O digital desempenhará um papel muito importante, mas pode haver outras áreas que não consigamos prever agora, contudo, temos de estar sempre à procura."

ECA

"Esta será provavelmente, em termos financeiros, a melhor época que já tivemos desde que existimos”

Resultados históricos 

"Esta será provavelmente, em termos financeiros, a melhor época que já tivemos desde que existimos. As pessoas precisam de saber que quando o Presidente foi eleito em 2003, e fui contratado há 16 anos, estávamos à beira de uma situação de falência. O presidente anterior estava na prisão, então tivemos um momento difícil há mais de uma década e conseguimos dar a volta. Por isso penso que isto também pode funcionar como um exemplo para outros clubes que estão a enfrentar dificuldades."

Diferença para os grandes da Europa

"Tivemos mais ou menos a mesma percentagem de crescimento nos últimos dez anos que os grandes clubes, mas o ponto de partida é diferente para eles e para nós. Quando participamos na Liga dos Campeões, onde temos estado nos últimos dez anos, e defrontamos clubes como Barcelona, Real Madrid e Manchester City, então percebemos que há uma enorme diferença. Mas o futebol tem um pouco a ver com compensar essa diferença ao fazer algo inesperado. Portanto, para nós, também se trata da possibilidade de surpreender e conseguir bons resultados contra esses clubes a nível europeu."

ECA

"Parcerias com marcas fortes nas Américas são extremamente importantes para obter o reconhecimento total"

Parceiros internacionais

"Parcerias com marcas fortes nas Américas são extremamente importantes para obter o reconhecimento total. Entendemos que o futebol não é o principal desporto nos Estados Unidos da América e, claro, o Benfica não é a marca europeia mais conhecida no país. É por isso que a parceria com essas marcas é tão importante. No final, teremos de fazer mais do que isso, porque não se trata apenas de marca. Trata-se muito mais da estratégia certa a implementar no mercado local."

Transferências de jogadores

"Precisamos de ter as transferências de jogadores como parte de uma oferta comercial. Se recebermos uma proposta de mais de 100 milhões de euros é impossível não olhar para ela como algo que fará uma grande diferença até ao final do ano em termos de rentabilidade. Há jogadores que conseguimos reter porque fomos capazes de aumentar os seus salários, mas em certos casos é impossível. Não temos capacidade financeira que nos permita competir com os salários pagos pelos 12 ou 13 maiores clubes da Europa."

ECA

"Uma Superliga sem subidas nem descidas de divisão destruiria o espírito do futebol”

A hipótese da Superliga Europeia

"A realidade é que esses grandes clubes quererem gerar mais dinheiro a qualquer custo. Fiz parte da direção da Associação Europeia de Clubes [ECA] até ao ano passado e tive discussões acerca da Liga dos Campeões. Uma Superliga sem subidas nem descidas de divisão, uma competição fechada, destruiria o espírito do futebol, a cultura. A nossa cultura é construída sobre promoção e despromoção, por isso tive discussões para tentar travá-la mesmo que o Benfica fosse um dos clubes que poderiam jogar na nova Superliga. A fase de grupos passaria de seis para 14 jogos. Julgo que isso é positivo para os clubes que estão a tentar lançar a competição. O lado negativo é que isto irá gerar tantas receitas adicionais que o desequilíbrio existente entre as ligas internacionais será ainda maior do que é hoje. As pessoas têm discutido o calendário, e creio que o calendário não é um grande problema, contudo, terá impacto no número de jogos que se pode fazer a nível nacional. Esse é o preço que podemos ter de aceitar se quisermos impedir que a Superliga aconteça."

ECA

"A maior mudança para nós nos últimos dois anos tem sido na vertente digital”

A constante aposta no digital

"Todos os clubes terão de ter diferentes estratégias digitais. A maior mudança para nós nos últimos dois anos tem sido na vertente digital. Para dar um exemplo, atualmente temos mais de 45 000 detentores de bilhetes de época – há seis ou sete anos, eram menos de 20 000. A razão para isso são as inovações digitais que introduzimos. É possível comprar bilhete com a aplicação Benfica, e quem tem um bilhete de época pode partilhá-lo com outra pessoa através do telemóvel. Estamos a fornecer mais serviços. Até deixámos de vender bilhetes porque não há mais espaço disponível no Estádio. A App é um exemplo de receita adicional gerada pela oferta de mais serviços aos nossos adeptos e sócios."

Importância dos conteúdos exclusivos – BPlay

"A nossa visão é que o conteúdo será um fator-chave para o nosso negócio futuro. Todos os nossos adeptos, e mesmo aqueles que não são nossos, mas gostam de futebol, estão cada vez mais atentos a conteúdos que devem ser vistos como únicos para eles. Se oferecermos o mesmo conteúdo que a televisão mostrou ontem, ninguém estará disposto a pagar por ele. Mas se oferecermos uma entrevista, treino, conteúdo sobre jogadores e treinadores que é único, então as pessoas estarão dispostas a pagar por ele. Acreditamos que iremos obter bons resultados no que diz respeito a atrair e reter os nossos fãs, e em termos de receitas."

ECA

"Fomos descritos como o clube certo no país errado”

Direitos televisivos

"Há cinco anos, em Portugal, o contrato dos direitos televisivos era de 7,5 milhões de euros por ano. Hoje em dia, temos mais de 40 milhões de euros. Decidimos transmitir os jogos da nossa equipa no nosso canal de televisão, a Benfica TV. Também comprámos os direitos da Liga Inglesa, da Liga Francesa e lançámos a Benfica TV com um canal premium por 10 euros. Na altura, chegámos a ter perto de 350 000 subscritores, o que nos ajudou a mostrar que o valor desses direitos televisivos era muito mais alto do que estávamos a receber. O clube que terminar em último lugar na Premier League irá receber três vezes mais do que nós, e o clube que terminar em último na La Liga irá receber o mesmo montante. Esta é a realidade, este é o mercado. Outros clubes das grandes ligas europeias recebem tanto dinheiro vindo dos direitos televisivos que não têm de perder muito tempo a pensar noutras fontes de receita. O montante que estamos a receber é tão baixo que temos de gerar receitas em todo o lado. Fomos descritos como o clube certo no país errado. Isso não é nada contra Portugal, mas é tão pequeno que se as nossas estratégias fossem implementadas num país diferente, como Espanha ou Inglaterra, os resultados seriam fantásticos."

Texto: Diogo Nascimento

Fotos: Arquivo / SL Benfica

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